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domingo, 23 de fevereiro de 2014


 

 

AI QUE SAUDADE TENHO DO MEU RECIFE – Carlos Bartolomeu

Todo carnaval, eu lamento estar por aqui. No Recife, estar na brincadeira é um estado de definição, uma marcha obrigatória. Se dissesse que não gosto do carnaval seria uma grosseira inverdade. Na realidade: amo, e ponto.

Não acrescento uma adjetivação ao redemoinho sentimental, a emocionada carnalidade que meu  espírito atinge diante do reinado momesco. Mas, nego-me a transigir, transitar e vivenciar com outros, a fábula pessoal, a qual em mim se decidiu, permanecer.  Enfrento-me solitariamente dentro da alegórica semana onde tudo vale, ou pelo menos deveria assim ser. Mas, não é.

A carne não vale absoluta. A mascarada obscura desvirtua o banho da orgíaca purificação que é o Carnaval. Toda graça e o riso desta festa é pago. Nadinha nenhum é gratuito. Nada é pagão. Há incenso das arábias atravessando o deserto do Saara para arder na pira devota e quaresmal. Só.

O furor dos metais, o repisar obsedante dos bumbos  e os surdos ecos das castanholas, tudo é sem a finalidade original de despir os nomes, a revelar nos homens sua leveza feminil e nas fêmeas todas, a cooperativa  práxis das bacantes saudando seu deus.

Bodes chifrudos, anjos lesbianos. Estudantes queijudos. Putas santificadas. Virgens de aluguel. Mães viragos e pais absortos e concluídos em mistério de beatice. Nudez. Banzo. Exposição. Êxtase. Tudo se conclui num mar de lodo politizado, idiotizado. Onde marcham as Marias, os Morcegos embaixo de lampiões, guardiões de flabelos, para onde voaram?

Saboreio cheiros e nenhum faz parte da festa. Apoteose do povo sem divisões e sem corpos. Onde tudo é um corpo só, Cheiro só. UM frevo somente...

‘Ai, ai saudade, saudade tão grande... ’ Que sabe como foi e como era esta viagem dos corpos e mentes se desfazendo e achegando-se sensual e festivamente ao desaparecer sem se conter. Entregando-se. Entregar-se... Esta festa não é mais assim. Foi. Era assim, um dia; noites foi.

No entardecer, já pela hora do ângelus os palhaços andavam de  costas... Em pulos e reverências. Pisando nas pontas dos pés, às vezes pé ante pé; outras, só um pé, e... Flutuações. Movimentos aéreos. Pássaros com as cabeças voltadas para trás: suas máscaras. A mascarada invertida, dois rostos para uma só face: CARNEVALE!

 Ai saudade... O éter... As nuvens de talco. Os reco-recos... Guizos. Água. Aguaceiro. Corpos molhados  e grandeza de se saber batizado dionisiacamente. Cada pecado uma deliberada gargalhada de felicidade. O mundo era um perfume e todo bem do carnaval, todo amor de carnaval valia uma eternidade e nem perene seria.

 

 

 

‘Ai se eu tivesse quem me fizesse um carinho, Não levava a vida que eu levo sozinho’.Chorava-se também. ‘Eu quero que chova três dias sem parar’. Ardia-se em expectativa de ficar. Permanecer. Mais a doce ênfase da brincadeira era simples: não iremos estar por aqui, senão três dias e uma vida inteira pra te libertar.

LIBERTAR. LIBERTAR. Esse era o trem. O bonde que arrastava as ilusões  e tolos compromissos. Deixar-se, esquecer-se de si, jogando-se na festa dos sentidos sem deles se aperceber. Pois que a original riqueza desta fantasia seria surpreender e derrubar. Arribar e desguarnecer. Fazer fenecer o orgulho de ser e no outro ser, existir. Sem ser, sem fantasia. Nu. Tangido. Expulso do éden, avistado na morada da rua, sem rua pra ficar. Apenas passar. Desse carnaval nunca houve segredos. Esperava empoleirada na janela a chegada de Vassourinhas. Todo ano era assim que era... Tinha vez que adormecendo me levavam lá para dentro. Nada percebia, e na manhã que se abria eu me via embaraçado e muito, muito triste por não ter podido beijar o estandarte do Vassouras. ‘Ai saudades... Entrego-me a vaidosa e incondicional certeza que sou um dos poucos que receberam a bênção de meu Senhor quando criança. Invariavelmente bêbado... de sono. DIONISO SE RIA COMIGO! Adormecido ele era meu guia.

O perfume daquele estandarte. Os aromas todos da rua no coração de uma infância era a perfeita descoberta da total entrega. Eu não era nada. Um confete era eu. Um jato de lança perfume que nunca tive. Somente aspirei e senti a dos outros. Mais quem se importa. Lá, era passagem. Tudo era passageiro. Um passageiro eterno: ‘Adeus Mario Melo partiu para eternidade... ’ Todas as coisas sem nenhuma urgência. Tão diferente de hoje em dia, me diz um homem de meia idade olhando-me no espelho.

Apelo e sonolência eis o carnaval de agora. Nenhum pacto em despir-se de si. Nada que afronte a torpeza do ego e os braços todos alinhados em igualdade, e nenhuma igualdade. Solidão e o tolo compromisso com a exibição de se algo. Filho de alguém. Senhor do futuro.

O carnaval que eu conheci nunca me prometeu permanecer. Durar.

O carnaval que acontecia das portas abertas para as ruas de São José era moreno, negro, caboclo e português. Vivos e desencarnados tangiam suas vozes como alaúdes profanos requisitando aos anjos luz e impermanência. Tudo desse meu carnaval ressoava a presença de adeuses e as lágrimas na alegria de se perder. Nunca se encontrar. Pois o que valia de fato era a fantasia.

‘ Na madrugada do terceiro dia...

A gente sente uma saudade sem igual
Que só termina
Com um novo carnaval’.

Todo carnaval eu lamento estar por aqui. Mas, permaneço.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

CARLOS BART & ensaios:

CARLOS BART & ensaios:

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  • Acabo de enviar as NOTAS de meus caros alunos...

  • Com isto considero encerrado meus anos de trabalho e aprendizado na UFPE. Aguardando apenas, o término de minhas férias oficiais e a despedida do meu papel de professor nesta instituição. Tudo foi breve como um piscar de olhos. Por vezes entediante, algumas vezes de uma pobreza nas relações... Riquezas também. Outras, muito poucas, o encontro e a descoberta sincera e renovadora. Mas, em tudo me fica a imponderável certeza de quem sem isto, não teria valido a pena. Ao contrário de alguns considerei ao longo desta passagem, a importância das amizades e dos afetos. Estar em um espaço que DEVE aliar relação humana com a fecundidade da arte sempre me pareceu, ENRIQUECEDOR e vital na criação e na oportunidade de expor sem receios aquilo que se é, e como se cultiva sua artisticidade.

  • Aos que ainda permanecerão no CAC/Teoria da Arte meus mais sinceros desejos de que sejam, menos arbitrários com o empenho acadêmico, e muito mais afeitos ao ensinamento de otimizar uma escolha pelo que ilumina, e a defesa do padrão libertário de ser ARTISTA e Mestre.

  • Um dia nos encontraremos do outro lado da VIDA (ou não), em outros lados das ideias e também por aqui, muito embora ISTO me pareça muito mais distanciado e dispensável por hora... Sem dúvidas, não comungamos do mesmo pensar e nem instamos com nossos aprendizes dentro das mesmas ideias e conceitos. Amei o perturbador, aquilo que transforma e desampara a principio, mais a medida que o tempo avança: revela e lustra.

  • Não me curvei ao compadrio e ao coleguismo fácil, as politicagens departamentais do momento. Venho de uma velha escola. Sou filho de mestres que honraram as artes pernambucanas; como Recifense legítimo me expus, perdi e me levantei... Não há medo, nem revanchismo no meu coração...

  • AMO o drama e sei encenar MEU PRÓPRIO CAMINHO. Eu me achei!

  • Aqueles que são meus próximos sabem um mínimo de mim, mas, sabem que sou leal, não dentro do convencional da lealdade e fidelidade, ao verdadeiro e honorável, é que eu sou leal.

  • Aos ALUNOS, muitos dos quais amei reservadamente, carinhosamente...

  • Aos ALUNOS todos que me definiram e auxiliaram à travessia daquilo de que sempre tive muito receio: GENTE; meu coração diz serena e alegremente: OBRIGADO.

  • Até Sempre.

  • Carlos Bartolomeu.

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