AI QUE SAUDADE TENHO
DO MEU RECIFE – Carlos Bartolomeu
Todo carnaval, eu lamento estar por aqui. No Recife, estar
na brincadeira é um estado de definição, uma marcha obrigatória. Se dissesse
que não gosto do carnaval seria uma grosseira inverdade. Na realidade: amo, e
ponto.
Não acrescento uma adjetivação ao redemoinho sentimental, a
emocionada carnalidade que meu espírito atinge
diante do reinado momesco. Mas, nego-me a transigir, transitar e vivenciar com
outros, a fábula pessoal, a qual em mim se decidiu, permanecer. Enfrento-me solitariamente dentro da alegórica
semana onde tudo vale, ou pelo menos deveria assim ser. Mas, não é.
A carne não vale absoluta. A mascarada obscura desvirtua o
banho da orgíaca purificação que é o Carnaval. Toda graça e o riso desta festa
é pago. Nadinha nenhum é gratuito. Nada é pagão. Há incenso das arábias atravessando
o deserto do Saara para arder na pira devota e quaresmal. Só.
O furor dos metais, o repisar obsedante dos bumbos e os surdos ecos das castanholas, tudo é sem a
finalidade original de despir os nomes, a revelar nos homens sua leveza feminil
e nas fêmeas todas, a cooperativa práxis
das bacantes saudando seu deus.
Bodes chifrudos, anjos lesbianos. Estudantes queijudos.
Putas santificadas. Virgens de aluguel. Mães viragos e pais absortos e
concluídos em mistério de beatice. Nudez. Banzo. Exposição. Êxtase. Tudo se
conclui num mar de lodo politizado, idiotizado. Onde marcham as Marias, os
Morcegos embaixo de lampiões, guardiões de flabelos, para onde voaram?
Saboreio cheiros e nenhum faz parte da festa. Apoteose do
povo sem divisões e sem corpos. Onde tudo é um corpo só, Cheiro só. UM frevo somente...
‘Ai, ai saudade, saudade tão grande... ’ Que sabe como foi e
como era esta viagem dos corpos e mentes se desfazendo e achegando-se sensual e
festivamente ao desaparecer sem se conter. Entregando-se. Entregar-se... Esta
festa não é mais assim. Foi. Era assim, um dia; noites foi.
No entardecer, já pela hora do ângelus os palhaços andavam
de costas... Em pulos e reverências.
Pisando nas pontas dos pés, às vezes pé ante pé; outras, só um pé, e...
Flutuações. Movimentos aéreos. Pássaros com as cabeças voltadas para trás: suas
máscaras. A mascarada invertida, dois rostos para uma só face: CARNEVALE!
Ai saudade... O
éter... As nuvens de talco. Os reco-recos... Guizos. Água. Aguaceiro. Corpos
molhados e grandeza de se saber batizado
dionisiacamente. Cada pecado uma deliberada gargalhada de felicidade. O mundo
era um perfume e todo bem do carnaval, todo amor de carnaval valia uma
eternidade e nem perene seria.
‘Ai se eu tivesse quem me fizesse um carinho, Não levava a
vida que eu levo sozinho’.Chorava-se também. ‘Eu quero que chova três dias sem parar’.
Ardia-se em expectativa de ficar. Permanecer. Mais a doce ênfase da brincadeira
era simples: não iremos estar por aqui, senão três dias e uma vida inteira pra
te libertar.
LIBERTAR. LIBERTAR. Esse era o trem. O bonde que arrastava
as ilusões e tolos compromissos. Deixar-se,
esquecer-se de si, jogando-se na festa dos sentidos sem deles se aperceber.
Pois que a original riqueza desta fantasia seria surpreender e derrubar.
Arribar e desguarnecer. Fazer fenecer o orgulho de ser e no outro ser, existir.
Sem ser, sem fantasia. Nu. Tangido. Expulso do éden, avistado na morada da rua,
sem rua pra ficar. Apenas passar. Desse carnaval nunca houve segredos. Esperava
empoleirada na janela a chegada de Vassourinhas. Todo ano era assim que era...
Tinha vez que adormecendo me levavam lá para dentro. Nada percebia, e na manhã
que se abria eu me via embaraçado e muito, muito triste por não ter podido
beijar o estandarte do Vassouras. ‘Ai saudades... Entrego-me a vaidosa e incondicional
certeza que sou um dos poucos que receberam a bênção de meu Senhor quando criança.
Invariavelmente bêbado... de sono. DIONISO SE RIA COMIGO! Adormecido ele era
meu guia.
O perfume daquele estandarte. Os aromas todos da rua no
coração de uma infância era a perfeita descoberta da total entrega. Eu não era
nada. Um confete era eu. Um jato de lança perfume que nunca tive. Somente
aspirei e senti a dos outros. Mais quem se importa. Lá, era passagem. Tudo era
passageiro. Um passageiro eterno: ‘Adeus Mario Melo partiu para eternidade... ’
Todas as coisas sem nenhuma urgência. Tão diferente de hoje em dia, me diz um
homem de meia idade olhando-me no espelho.
Apelo e sonolência eis o carnaval de agora. Nenhum pacto em
despir-se de si. Nada que afronte a torpeza do ego e os braços todos alinhados
em igualdade, e nenhuma igualdade. Solidão e o tolo compromisso com a exibição
de se algo. Filho de alguém. Senhor do futuro.
O carnaval que eu conheci nunca me prometeu permanecer.
Durar.
O carnaval que acontecia das portas abertas para as ruas de
São José era moreno, negro, caboclo e português. Vivos e desencarnados tangiam
suas vozes como alaúdes profanos requisitando aos anjos luz e impermanência.
Tudo desse meu carnaval ressoava a presença de adeuses e as lágrimas na alegria
de se perder. Nunca se encontrar. Pois o que valia de fato era a fantasia.
‘ Na madrugada do terceiro dia...
A gente sente uma saudade sem igual
Que só termina
Com um novo carnaval’.
Que só termina
Com um novo carnaval’.
Todo carnaval eu lamento estar por aqui. Mas, permaneço.


