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mergulhe

terça-feira, 9 de abril de 2013

A FOME DE LEMBRAR – Carlos Bart



            Acordo cedo. Morto de fome. Abro a geladeira. Uvas, suco de laranja, tâmaras. Não! Por ordem: suco, as uvas e uma tâmara, apenas. Frito os ovos cuidadosamente na frigideira; antes, o café. Água fervente sobre o pó. O azeite espanhol chiando e os ovos jogados nele. E o aroma. Perfume antigo invade minha casa. A cara moura de meu avô maranhense, sua cor e forma de beduíno do deserto me invadem.  Bondade.  O meu bairro do Flamengo conjugado ao meu São José que é São José de lá, lá do Ribamar da ilha de São Luis. Rei de França. São Luis: minha Tia Nettie e seu irmão, meu pai Davout. França Y Andaluzia... Dinorah minha vó caminhando até o aterro olhando a ilha que não estava lá. Tudo aquilo que em mim é coração desaba. Chove no Rio e o rio enche aqui. Na TV p&b, as cores da prata e das cinzas... Rio-me por lembrar. Tenho por outra vez o olhar mareado, e meu respiro. Ouço-o e dele retornam novos ruídos como se novos fossem.  Os primeiros acordes. Violão e uma voz baixinha quase rascante, mas, doce e triste também. Sambinha, SAMBINHA: o QUE É BOSSA NOVA MEU AVÔ. Bossa Nova é Bossa Nova Carlos... Bartô.
            O cheiro do Rio é doce de perfumes de flores, sal e violeta têm sua pele e cor.O Recife é isso também em mim, mais eu sei que não é. É na minha recordação do ido, do perdido. O Recife é salobre e brisa misturada à água de côco. Jasmim e mangas. Branco azul e ouro avermelhado no final da tarde.
            Muita pergunta que eu fiz a Vida me respondeu. O amor que eu quis ela não fixou. Como se me colocasse a prova, para saber se era isso mesmo.Todos se foram como num verso de Manoel Bandeira. A Vida me deu ela, a própria Vida, e disso quem pode reclamar.
             Os pratos e a xícara estão sujos na pia, me esperam... Limpeza e ordem. Uma semente de datile no pires. O cheiro da tâmara. O velho odor de açúcar e deserto. Pois era assim que me vinha de presente: ‘DATILES DEL DESIERTO’. Os presentes de meu avô. Brinquedos, roupas, doces, as frutas cristalizadas. E datiles... Um avião repleto de bombons de aniz. Toda ternura da ilha de são Luis do Maranhão e do flamengo, senador vergueiro. Lá, onde me caiu o primeiro dente e foi na rua. Era de tarde, nublado, meio frio e eu correndo o dente soltando-se e... Caiu. Um gostinho de sangue. Mas, no ar, o cheiro do pão doce e da doçura do meu avô escorrendo pela parede de uma vida inteira. A minha vida.
            Se o amor me fez das suas, me visitando disfarçadamente, e em sua pujante graça, finge-se de morto e faz que não me sustentem todos os dias, então, eu não aprendi. Mais eu sinto que eu sei. E, se talvez eu ainda não saiba como estar com ele ou nele plenamente, O Amor virá numa manhã. Sentaremos um de frente ao outro e o cheiro esplendido de café tomará conta da sala de nossa casa, o chiado do azeite espanhol esquentando ovos na frigideira, os pães partidos, lábios e o olhar molhado de somente beijar, olhar, repetir...
            Comer silenciosamente, um bocado e outro até se saciar. No intervalo, as mãos unidas e todo o começo de um dia que é recomeço. Um dizendo: Meu... E o outro: amor! Silêncio. Fade in...

domingo, 7 de abril de 2013

mergulhaR

swing melanina


                                             carlosBART
SWING MELANINA
Letra: Carlos Bartolomeu
Música: David Klin



Eu sei com gosto de ti.
E como me entregas ao nada.
Fingindo fugir de mim, permaneces parado, parando-me.
Me luzindo o teu olhar silenciado em mim,
E calando a mim. É o fim. Eu sei. Um fim...
Tua voz de repente acontece. Me estremece o teu som.
Meio tom repetindo a maldade que eu sou teu: ‘si... menor’.
 Desafinando, me mandando para um fado que não é meu.
Feliz, revendo em mim, um novo alguém.
Outro rapaz, que invento ser eu.
É assim que me entregas ao nada!
Fugindo de mim, me trocando,
É o fim. Eu sei. Um fim?
Torno a sonhar com você de novo, e outra vez,
Reunindo um mundo de milhões de nós dois.
Porem o que é meu de verdade, é só. É um só. Só eu.
Um amor que outros pensam menor.
E na minha imaginação é imenso  
E por isso me comprometo com o Nada que você é,
Fugindo de mim, em ti permaneço.
Sabendo que assim, tu não és tu e que eu não sou só eu:
Eu sei...

(primeira versão para um dos temas musicais de SUAS MÃOS)

AOS ATORES



      DIZ MEU NOME*, também pode ser chamado de Relativo Bolero. . .
     Neste exercício para atores, a afetividade contida no texto, por vezes dolorosa, é instaurada através de lembranças. Estas devem ser conduzidas no contexto de um humor esclarecido. O que isso possa significar deixo às mãos da direção e na imaginação dos atores. Eles devem compor com fragmentos das suas memórias, a evocação de suas personagens. Deverão jogar com as palavras e, no entanto aceitarem o recitativo de esquemas, velhos e conhecidos destas mesmas personagens: O decalque, o corte e a superposição das imagens, muitas e muitas vezes reconstruídas por elas e que montam o romance sob a ótica da paixão.
     O tempo do silêncio é o segredo do ritmo. Dois prá lá. Dois ou três para...  
   Sem nenhum pudor sucumbem a canastrice amorosa e tornam-se plagiárias de modelos, escrituras, vidas teatrais. São citações, clones reverentes de outras máscaras. Colecionam as mesmas versões da amorosidade. No lugar comum estão situadas. Perderam o pejo de olhar para o desfeito, jogam para o alto!  Em palimpsesto duvidoso construiu o discurso de seus sentimentos, apreendido nas telas de cinema... E o desenrolam com sugestiva carnalidade... Assinando em baixo.
Suas vidas podem não dar um filme, mas elas sabem que saíram de um! Qual? Vai lá, se saber! Exorcizar o aparentemente impossível: a passagem do tempo e a permanência da dolorosa memória de amores, para elas não é meta, é destino.  Elas tentam corajosamente!

P.S.: X e Z não são os nomes reais destas personagens. De fato não me vem a mente nomes originais e nada mais forte me ocorreu para solucionar o esquecimento! Quando ouço as palavras destas criaturas, destes homens enamorados, reconheço que Ana e Teresa, personagens de As Moças, texto teatral de Isabel Câmara são as suas sombras.
Eu as beijo... Finalmente!
* O nome do texto já editado denominei de  ENSAIO ABERTO.

 
                                   Carlos Bartolomeu
                                               Derby abril/maio2002

sábado, 6 de abril de 2013

ensaio de entrega

  Em certo tempo passado assisti uma pelicula cujo nome era o mar: MEDITERRÂNEO. Falava sobre a história de um grupo de soldados italianos que na Segunda guerra foram parar numa iha grega e por lá, em meio ao sol, ao sal e as paixões esqueceram as 'razões' da guerra.
  - O que os incomodava no entanto era a crença na desistência de seus ideais !- Numa nostalgia de permanecer fiéis a crença, neste caso dos outros. O filme resolve a questão, enviando-os a uma outra possibilidade, sem dúvida mais humana: a da aceitação da mudança, de que ha momentos que o nada a fazer é a melhor coisa. 
   Deixa-se no ar a consciencia de que mesmo a desistência do heroísmo também é uma ação imaculada. Fugir é quase uma opção de sabedoria.Talvez mesmo, a mais acertada quando se reconhece o limite, sem receio estaciona-se em seu próprio território, não se necessitando provar que se está dentro do simplesmente humano.
  Quando escrevo sobre tal memória da imagem, fico a pensar nos meus pares e em seus receios de se sentirem mais verdadeiros ou corajosos diante das gritantes insolvências da vida de artistas... Pré-existe em muitos de nós, um medo do futuro baseado em escolhas e crenças, um passadismo se revela mortal à criação... 
  Ser honesto é condição inerente ao artista e as suas relações. A verdade apenas desmente a mentira, o engano. Substituindo-se a tragédia pela farsa tereros apenas um efeito comicamente doentio.
carlosBART
   Tenho cuidado de pensar alto. Tenho me deixado ver para muitos que assistem às praças midiaticas da hora. Portanto, achei plausível exercitar-me nun espaço próprio para isso. Resolvi criar meu circo. Lugar onde eu possa me deixar convencer da possibilidade do exercício da escrita.
   Escrever pode ser uma ação digna do prazer; pode se entreter com o recato e também com inércia criativa, postegar... Todavia o ato de escrever pede que você esteja envolto numa entrega, dentro dela, mesmo antes da construção. O pensamento e o coração devem se confrontar e medindo esforços continuados, desenharem, esculpirem suas traições...
   Escrever nos amedronta e nos impele. Pode nem ser uma arte nas nossas mãos, mas, sem duvida é oração.
carlosBART