A FOME DE LEMBRAR – Carlos Bart
Acordo cedo. Morto de fome. Abro a geladeira. Uvas, suco de laranja, tâmaras. Não! Por ordem: suco, as uvas e uma tâmara, apenas. Frito os ovos cuidadosamente na frigideira; antes, o café. Água fervente sobre o pó. O azeite espanhol chiando e os ovos jogados nele. E o aroma. Perfume antigo invade minha casa. A cara moura de meu avô maranhense, sua cor e forma de beduíno do deserto me invadem. Bondade. O meu bairro do Flamengo conjugado ao meu São José que é São José de lá, lá do Ribamar da ilha de São Luis. Rei de França. São Luis: minha Tia Nettie e seu irmão, meu pai Davout. França Y Andaluzia... Dinorah minha vó caminhando até o aterro olhando a ilha que não estava lá. Tudo aquilo que em mim é coração desaba. Chove no Rio e o rio enche aqui. Na TV p&b, as cores da prata e das cinzas... Rio-me por lembrar. Tenho por outra vez o olhar mareado, e meu respiro. Ouço-o e dele retornam novos ruídos como se novos fossem. Os primeiros acordes. Violão e uma voz baixinha quase rascante, mas, doce e triste também. Sambinha, SAMBINHA: o QUE É BOSSA NOVA MEU AVÔ. Bossa Nova é Bossa Nova Carlos... Bartô.
O cheiro do Rio é doce de perfumes de flores, sal e violeta têm sua pele e cor.O Recife é isso também em mim, mais eu sei que não é. É na minha recordação do ido, do perdido. O Recife é salobre e brisa misturada à água de côco. Jasmim e mangas. Branco azul e ouro avermelhado no final da tarde.
Muita pergunta que eu fiz a Vida me respondeu. O amor que eu quis ela não fixou. Como se me colocasse a prova, para saber se era isso mesmo.Todos se foram como num verso de Manoel Bandeira. A Vida me deu ela, a própria Vida, e disso quem pode reclamar.
Os pratos e a xícara estão sujos na pia, me esperam... Limpeza e ordem. Uma semente de datile no pires. O cheiro da tâmara. O velho odor de açúcar e deserto. Pois era assim que me vinha de presente: ‘DATILES DEL DESIERTO’. Os presentes de meu avô. Brinquedos, roupas, doces, as frutas cristalizadas. E datiles... Um avião repleto de bombons de aniz. Toda ternura da ilha de são Luis do Maranhão e do flamengo, senador vergueiro. Lá, onde me caiu o primeiro dente e foi na rua. Era de tarde, nublado, meio frio e eu correndo o dente soltando-se e... Caiu. Um gostinho de sangue. Mas, no ar, o cheiro do pão doce e da doçura do meu avô escorrendo pela parede de uma vida inteira. A minha vida.
Se o amor me fez das suas, me visitando disfarçadamente, e em sua pujante graça, finge-se de morto e faz que não me sustentem todos os dias, então, eu não aprendi. Mais eu sinto que eu sei. E, se talvez eu ainda não saiba como estar com ele ou nele plenamente, O Amor virá numa manhã. Sentaremos um de frente ao outro e o cheiro esplendido de café tomará conta da sala de nossa casa, o chiado do azeite espanhol esquentando ovos na frigideira, os pães partidos, lábios e o olhar molhado de somente beijar, olhar, repetir...
Comer silenciosamente, um bocado e outro até se saciar. No intervalo, as mãos unidas e todo o começo de um dia que é recomeço. Um dizendo: Meu... E o outro: amor! Silêncio. Fade in...



