VER

VER
mergulhe

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

  • memória - carlos bartolomeu
  •  
  • Há na vida de cada um de nós, memórias harmoniosas que perduram. Estas nos tornam mais aconchegados ao calor e a mais pura visão de humanidade. São coisas, pessoas, fatos ou objetos plenos em si mesmos, e que nos renviam silenciosamente ao todo e sua simplicidade.
  • Tenho para mim lembranças que me arrumam, me harmonizam, me pondo inteiro na estrada... Cada vez que revejo o final de O CIRCO de Chaplin: Carlitos numa raiva desemparada e criadora chuta a estrela de papel amassado, recobrando-se e retomando sua caminhada. Ao rever a cena me sinto em sintonia com o universo. Como também me toca profunda e festivamente todas as vezes que na Praça Chora Menino, o baobá que nela existe soberano, me olha. Sinto sua força e recrio minhas raízes quando nos avistamos e nos sorrimos da nossa amizade sem palavras, mas apaixonada. Naquele lugar circulam dóceis fantasmas... Meninos já muito antigos que deslizando sobre as pedras e gramas, se escondendo entre árvores flutuam e emanam alegrias e brincadeiras...
  • O cheiro dos plátanos de Paris, aquele perfume enjoativo e açucarado misturado ao frio levando-me para O Fim. O lampejo organizador reinventando a obscura dissolução... No resfriar-se do ar, um harpejo de soluços bem unidos e quase inaudíveis e à Noite, perda do peso e das contradições. Um cheiro somente, um doce aroma e o sibilar do aço caindo libertador. Plátanos. Sena. Louvre... Place de Grève, plátanos.
  • Ai, o olhar descuidado nos traz de volta, tudo o que sendo nosso um dia, se perdeu. Apenas, não mais querer, não precisar e tudo que se vai, retorna por uma outra rua, volta numa nova roupagem e a emoção explode intacta em sua força, agora sem dor e somente o colorido da vida.
  • Coisas antigas, gentes do passado, amores incompletos, sonhos perdidos, risos abafados. Tudo retorna. No olho levado do busto de Nefertiti, o rasgão entre os cosméticos de seu olhar roubado me ensina o ir para dentro, a força do perfil régio e o outro olhar mel e luz, tomam meu coração. Suavidade da força. Força da suavidade.
  • Nefertiti no Neues de Berlin... e nada é mais sofisticado que uma rainha dentro de uma cuba de vidro; nada e nem ninguém foi mais longe em eternizar a beleza. Igual, lembra o meu coração, apenas Antinôo: a cópia no Museu de Belas Artes do Rio. Uma cópia... A beleza resiste e se multiplica. Lembrar.

Um comentário: